31 janeiro 2012

Impactos da taxa de juros sobre a inflação

cifrão na gangorra
Impressiona como alguns analistas insistem na tese de que o governo tem errado sistematicamente em baixar os juros, pois seria um incentivo à alta da inflação. Contudo, há erro na atitude do governo? Esse não parece o caso se o olhar se volver para outros aspectos da economia. A ideia de que a taxa de juros básica tem o único objetivo de ser uma ferramenta de controle inflacionário é, no mínimo, imprecisa. Ela pode ser uma ferramenta muito útil para incentivar o empreendedorismo nacional.

Com frequência, analistas aparecem na imprensa dizendo que o governo pode incentivar o aumento da inflação ao baixar a taxa de juros. A ideia é que uma taxa de juros baixa incentiva e aumenta o consumo, que então pressiona os preços para cima. Contudo, os consumidores atentam muito mais para os juros do cartão de crédito e do crediário das lojas que para aqueles pagos por títulos públicos federais. Uma queda de 4,5% da taxa básica de juros se revela em uma redução de míseros 0,85%, num juro que passa de 114,76% para 113,79%. No comércio a queda média foi de 5,36% para 5,32% ao mês. Isto implica dizer que alguém que compre um bem de R$ 1000 em um financiamento de 12 meses pagará R$ 1927,56 em vez de R$ 1931,64. Não há evidências sólidas que apontem que uma economia de R$ 4,08, num montante de quase dois mil reais, pressione o consumidor rumo à gastança desenfreada e irracional.

Além dessa relação tênue, deve-se reforçar que a taxa de juros não se relaciona única e exclusivamente com a inflação. Há uma relação fortíssima entre a taxa SELIC e a dívida pública. (Como já havíamos destacado em Taxa de juros e dívida pública). De maneira resumida, basta dizer que os juros básicos da economia são usados pelo governo para “premiar” a venda de títulos públicos, que são os papéis da dívida pública nacional. Quanto maiores esses juros, maior o custo do governo com a dívida. Ora, quanto maior a dívida de alguém, menor é a possibilidade de pagá-la. Assim, para comprar papéis dessa dívida, os interessados exigirão um prêmio maior, pois o risco de inadimplência (ou calote) aumenta. É nessa variável que o governo vem trabalhando.

O Planalto tem indicado seu interesse em diminuir a relação dívida/PIB. Uma das consequências será a redução do prêmio, ou seja, da taxa de juros básica da economia.Uma das atitudes recentes do governo nesse sentido foi quando, em agosto, aumentou a meta de superávit primário em 10 bilhões de reais, e assim passou a economizar mais para pagar parte da dívida pública. Não coincidentemente, ele começou naquela ocasião uma queda na taxa básica de juros apesar do barulho de alguns que diziam que o governo estava sendo irresponsável com relação à inflação. Hoje se sabe que não havia irresponsabilidade. O que impressiona é que na grande imprensa não vimos ninguém relacionando este esforço pelo superávit primário com a taxa de juros.

O anúncio do governo de chegar a uma taxa de juros nominal de um dígito até o fim de 2012 sinaliza que seu esforço em diminuir a relação dívida/PIB continuará. Ela já decresceu de cerca de 40% no início do governo Dilma para 36,5% ao fim de 2011. Isso implica dizer que estamos caminhando para uma taxa de juros real na economia entre 2% e 3%. Hoje ela está em 4%. Se a inflação se mantiver no centro da meta (4,5%) em 2012 poderemos ter uma taxa básica de juros de 7,75%.

Qual a intenção do governo Dilma ao oferecer uma taxa de juros real entre 2% e 3%? A impressão é relativamente clara: incentivar a produção nacional, o empreendedorismo. Com mais produtos sendo ofertados, a demanda não pressionará os preços para cima. Busca-se o equilíbrio. Quando o governo passar a pagar um prêmio menor, mais investidores procurarão empresas grandes que operam na bolsa, são bem administradas e retornam mais que 2% ao ano. Ao mesmo tempo, se verá o crescimento de pequenas empresas ou ideias modestas que possam ser implementadas e cujo retorno real seja superior a 2%. Um Brasil empreendedor parece ser o legado que o governo atual quer deixar para o futuro. Uma herança que, diga-se de passagem, soa-nos empolgante.

Veja também:
- A inflação é um processo natural
- País rico é país com poupança

Referências:
- BC prevê taxa de juros de um dígito no Brasil
- Selic fica 4,5% menor, mas juro ao consumidor deve cair só 0,85%
- Relação dívida/PIB cai para 36,5%, diz Mantega
- Governo aumenta superavit primário em R$ 10 bilhões

Imagem: sxc.hu



Sobre o Autor:
Bruno Saavedra Assine por email | Twitter | Facebook | Nosso Feed
Bruno Saavedra, 28 anos, casado, está por aqui desde 2010. Formado em Administração pela UNAMA (Belém, PA), atualmente cursa o Mestrado em Administração do IBMEC-RJ. Paraense de nascimento, carioca por adoção.

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